domingo, 16 de novembro de 2014

Operação Mar Verde

      O burburinho mediático a que assistimos na sequência do falecimento do Comandante de Mar e Guerra Guilherme Almor de Alpoim Calvão em que a Marinha de Guerra, num gesto de nobreza, cumpriu a última vontade de um dos seus maiores apesar do histerismo ressabiado de vários sectores ditos "progressistas", revelou desconhecimento quase generalizado relativamente àquela que foi a operação de maior envergadura realizada pelas forças armadas portuguesas em território exterior e que aquele militar, - na ocasião Capitão-Tenente - concebeu, planeou e comandou; a "Operação Mar Verde" - nome inspirado num quadro de Boticelli -, que ocorreu na madrugada e manhã de 22 de Novembro de 1970, sábado, em Conakri.
 
      Terá sido um sucesso ou um fracasso? Foi, claramente, um fracasso. Julgo mesmo que, dado o contexto internacional da época estava condenada ao fracasso independentemente do desfecho militar. O primeiro objectivo desta operação foi o de induzir um golpe de Estado na República da Guiné Conackri, base de apoio logístico e operacional do PAIGC, colocando no poder os opositores do sanguinário Sekou Touré, o que não se verificou. Igualmente ficou por concretizar a detenção ou neutralização deste ditador e de Amílcar Cabral, bem como a destruição dos dois caças MIG oferecidos pela união soviética ao regime de Conackri, e das emissoras de rádio locais. O caso dos MIG levaria ao abortar da operação devido à perda, pelo menos teórica, da supremacia aérea susceptível de comprometer politicamente Portugal, algo que deveria ser evitado a todo o custo conforme orientação do próprio Marcello Caetano - António Lobato revelaria mais tarde não haver capacidade operacional destas naves por impreparação dos pilotos guineenses, sendo certo que uma delas sobrevoou a grande altitude o teatro de operações já na fase de retirada, sem fazer fogo. Por esta razão foram canceladas a parte final e a segunda fase da operação,  que consistia no silenciamento das rádios, no apoio à revolta popular e no bombardeamento dos aquartelamentos do PAIGC na Guiné Conakri e de outros alvos estratégicos, pelos caças-bombardeiros FIAT. 
      Por outro lado, a preparação e execução da operação revelou divergências por parte de alguns oficiais, que acabaram por conduzir a um episódio de deserção e mostraram como a superestrutura militar estava já "minada", traduzindo-se num risco efectivo de enfraquecimento da moral de algumas tropas.
      Finalmente, as forças inimigas tinham o apoio efectivo da união soviética e seus satélites, das Organizações de Unidade Africana e dos Países não-alinhados e ainda de vários países ocidentais - basicamente, os mesmos que agora nos apertam "o gasganete" incluindo os EUA, que no rescaldo da operação, para não ficarem atrás dos soviéticos, ofereceram ao ditador guineense 4,7 milhões de dólares para reconstrução da cidade  -, daqui resultando o tremendo fracasso político consequente que fragilizou ainda mais a posição de Portugal no contexto internacional, apesar de as autoridades nacionais nunca terem assumido o raide. Ainda que o golpe de Estado se tivesse verificado, julgo que o desfecho político teria sido o mesmo, apesar de os EUA serem useiros e vezeiros em provocar golpes de estado em países soberanos, desde o episódio da Cuba que os EUA usurparam a Espanha com o pretexto da "libertação" do jugo colonial, violando um dos seus princípios fundadores de não intervenção na política interna de outros países.
      Quem não teve dúvidas do fracasso da operação foi António de Spínola que ficou decepcionado e furibundo, responsabilizando em privado Calvão pelo insucesso, pois considerava vital a mudança de regime de Conakri  para a supressão do apoio que prestava ao PAIGC. Julgo que, apesar dos MIG, Spínola entendia que Calvão deveria ter prosseguido com a operação forçando o golpe de estado e a mudança de regime. Afinal, os MIG, estavam militarmente, ainda, inoperacionais, embora Calvão determinado a respeitar do compromisso assumido com Caetano, não o soubesse na altura. Para este, a libertação dos prisioneiros portugueses, por si só, justificava a operação e deveria evitar-se a todo o custo qualquer indício da presença das tropas portuguesas no teatro de operações.
 
      Posto isto, no plano militar, efectivamente, a operação foi um sucesso na medida em que vários objectivos estratégicos foram alcançados, entre os quais, o mais importante de todos; a libertação de 26 prisioneiros portugueses das masmorras do PAIGC, entre as quais o nobre António Lobato - sargento aviador -, que resistiu 7 anos ao cárcere sem trair a sua Pátria e que fora o inspirador desta operação. Outros dos objetivos alcançados consistiram na destruição das instalações do quartel General do PAIGC durante a qual foram eliminados dezenas de militantes e guerrilheiros, entre os quais Aristides Pereira, na neutralização do aquartelamento da Guarda Republicana onde foram silenciados dezenas de elementos e soltos cerca de 600 prisioneiros civis, da destruição do campo de treino Boiro, na neitralização da Gendarmerie, na destruição de vários edifícios na zona do palácio presidencial e no afundamento e incendiamento da moderna frota de lanchas rápidas do PAIGC e da Guiné Conakri.
 
      As razões para o fracasso, apesar do sucesso militar, prendem-se com a perda da superioridade aérea em virtude da não destruição dos MIG - por não se encontrarem no local previsto, devido a deficiente informação, que terá também sido a causa da não detenção de Amílcar Cabral já que este se encontrava ausente no estrangeiro. Quanto a Sekou Touré, conseguiu escapar refugiando-se em casas próximas graças ao aviso "in extremis" de elementos das forças locais, tendo sido acometido por um ataque de pânico ao julgar-se perante forças invasoras, ainda a caminho, tendo chegado mesmo a suplicar a morte em vez da entrega às mãos do povo (posteriormente mandou fuzilar estes elementos talvez por terem testemunhado a sua fraqueza). Outra das causas do fracasso prende-se com os dissidentes políticos do Front - movimento de oposição ao regime de Conakri -, escolhidos para parceiros desta aventura e treinados na ilha de Soga, no arquipélago dos Bijagós, juntamente com as restantes tropas,  que parecem não se terem revelado à altura da empreitada, apesar de terem decidido ficar em Conakri  para fomentar o golpe, acabando, mais tarde, executados por ordem de Sekou Touré.
 
      Discordaram da operação; o Primeiro-Tenente Costa Correia, comandante da LDG "Montante" preocupado com as implicações políticas da mesma, bem como o Major Hugo Leal de Almeida, supervisor da Companhia de Comandos Africanos, cujo 2º comandante, Tenente Januário, acabaria por desertar arrastando os seus homens para a morte, não sem antes terem servido os desígnios  de propaganda política de Sekou Touré. Hugo Leal de Almeida acabaria mesmo por receber ordem de prisão de Calvão, que o conduziu à presença de Spínola, o qual, na presenta dos seu Estado-Maior o insultou e agrediu tendo chegado mesmo a arrancar-lhe os galões, para estupefacção geral, acabando por aquela anuir à inclusão na operação tendo porém deixado a semente de insubordinação na sua companhia, como veio a verificar-se. Mal visto ficou também o Alferes Jamanca que inexplicavelmente, não executou a missão do seu grupo que consistia na destruição das instalações da rádio local, alegando mais tarde desconhecimento da localização das respectivas instalações. Caricato o desertor prisioneiro "libertado" à força, injuriado e agredido por Spínola ao despedir-se dos prisioneiros antes do embarque  dos mesmos para Lisboa, cerimónia em que ofereceu o seu sobretudo ao "escanzelado" mas nobre Lobato para se proteger do frio da capital .
 
      Registou-se uma baixa nas forças portuguesas, o Alferes Ferreira, abatido com uma rajada de metralhadora no assalto ao quartel da Guarda Republicana, cujo corpo foi recuperado, um ferido grave e vários ligeiros. 
 
      A ideia da "Operação Mar Verde", germinou na mente de Calvão ao ter conhecimento logo após a sua chegada à Guiné, da longa prisão do corajoso António Lobato - Sargento aviador, capturado na sequência do despenhamento do seu T6 na ilha de Como no início do conflito, em Maio de 1963 -, foi adoptada pelo General Spínola na perspectiva da alteração do curso da guerra e foi aprovada informalmente por Marcello Caetano perante Alpoim Calvão que para o efeito se deslocou a Lisboa, recurso de Spínola à prévia reprovação do Ministro do Ultramar, Silva e Cunha e do Ministro da Defesa, Sá Viana Rebelo, que receavam fortes repercussões internacionais negativas para Portugal, como veio a verificar-se. A operação teria de ser secreta- usaram-se fardamentos semelhantes aos das forças armadas da Guiné Conakri e do PAIGC, cigarros e fósforos das mesmas marcas e armas de origem russa -. Para Caetano, bastaria conseguir a libertação dos soldados portugueses para  considerar a operação bem sucedida e não deixar vestígios das forças portuguesas.

Principais intervenientes:

Na instrução na ilha de Soga:

      Primeiro-Tenente Rebordão de Brito - chefe do grupo -, Segundo-Tenente Fuzileiro Especial Benjamim Abreu, Alferes Ferreira, Furriel Comando Marcelino da Mata - que se viria a destacar na execução da operação, o Cabo Rossa - o sono -, o Marinheiro Tristão - o Setúbal - e o Marinheiro António Augusto da Silva - o Touré, estes últimos fuzileiros que acompanhavam Calvão para todo o lado.

Forças intervenientes na operação:

      Para 25 objectivos primordiais; 200 combatentes do Front, Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 21 - com 80 efectivos africanos - comandado pelo Primeiro-Tenente Cunha e Silva e a Companhia de Comandos Africanos constituída por 150 homens e comandada pelo Capitão João Bacar.

Armas utilizadas:

      A cargo do Major Carlos Azeredo; 250 espingardas automáticas AK47 Kalashnikov, 20 Morteiros 82 e 12 RPG 7 e outras.

Colaborador especial de planeamento:

      Grumete Fuzileiro e desertor arrependido Alfaiate, contribuindo com os seus conhecimentos da cidade de  Conakri onde tinha permanecido algum tempo durante a deserção.

Meios navais:

      Quatro Lanchas de Fiscalização Grandes; "Orion", comandada pelo Capitão-Tenente Faria dos Santos, "Cassiopeia", comandada pelo Capitão Tenente Lago Domingues, Dragão, comandada pelo Primeiro-Tenente Duque Martinho e a "Hidra", comandada pelo Primeiro-Tenente Fialho Góis. Duas Lanchas de Desembarque Grandes; "Bombarda", comandada pelo Capitão-Tenente Aguiar de Jesus, e "Montante", comandada pelo Capitão Tenente Costa Correia.

      Elo de comunicação permanente entre Calvão e Spínola, o Comodoro Luciano Bastos que acompanhou desde o seu gabinete toda a operação.

Grupos de acção:

      "Victor" comandado pelo Segundo-Tenente Rebordão de Brito, constituído por 14 fuzileiros especiais, o primeiro a entrar em acção, junto ao Yacht Club afundando três vedetas, incendiando mais quatro e abatendo cerca de quinze inimigos que disparavam de terra, tendo sofrido um ferido ligeiro.

      "Índia", comandado pelo Furriel Demda Seca, tomou e desactivou, após eliminação das sentinelas, a central eléctrica cortando o abastecimento de energia à cidade.

      "Sierra", comandado pelo Capitão-Paraquedista Lopes Morais que invadiu e "varreu"a pista e hangares do aeroporto não tendo encontrado os MIG - estavam estacionados na cidade de Labé, a cerca de 150 Km -,  e cuja destruição era vital para levar a missão até final. Foi deste grupo que o Tenente Januário desertou com vinte homens. Regressaram por ordem de Calvão abrindo caminho a tiro entre tropas inimigas incluindo blindados.

      "Zulu", comandado pelo Subtenente Falcão Lucas que ataca as instalações do PAIGC destruindo cinco edifícios, diversas viaturas e vários militantes e guerrilheiros, atacando também as residências dos dirigentes em busca de Amílcar Cabral que para sua sorte se ausentara do país.

      Segundo grupo de assalto comandado pelo Segundo-Tenente Benjamim Abreu, constituído por quatorze fuzileiros, incumbido de eliminar Sekou Touré, invade a residência do ditador, já deserta, constatando a sua ausência, tendo os guardas fugido a grande velocidade ao avistarem-nos. De seguida destroem vários edifícios do complexo residencial e tomam de assalto o Complexo das Milícias Populares a cerca de 100 metros eliminando todos os que lá se encontravam, regressando finalmente ao local de embarque.

      Terceiro e quarto grupos de assalto comandados pelo Primeiro-Tenente Cunha e Silva dirigem-se para a prisão "La Montaigne", em cujos muros abriram um rombo a tiro de bazuca que lhes permitiu libertar os prisioneiros portugueses, um civil e 25 militares - um dos quais desertor trazido à força -, após terem abatido oito guerrilheiros do PAIGC.

      "Óscar", comandado pelos Alferes Ferreira e Tomás Camará, constituindo por quarenta homens, entre membros do Front e dos comandos africanos, entre os quais o conhecido Furriel Marcelino da Mata, que tinha como missão principal a neutralização do quartel da Guarda Republicana. Marcelino da Mata desbloqueou o acesso ao quartel ao abrir o portão de entrada depois de se ter lançado de cabeça pela janela  da casa da guarda e eliminado a golpe de sabre o respectivo guarda, não tendo conseguido evitar a morte do Alferes Ferreira abatido pela guarda a rajada de metralhadora enquanto Mata abria o portão. Aberto este, as forças portuguesas invadiram as casernas tendo abatido todos os que lá se encontravam e solto cerca de seiscentos prisioneiros políticos civis, amontoados e maltratados em celas exíguas, alguns deles cegos. Tendo entretanto soado o alarme, chegam reforços inimigos ao quartel, sendo sistematicamente abatidos, tendo as forças invasoras capturado um jipe para transporte do corpo do Alferes Ferreira, abrindo caminho por cima de uma barreira de cadáveres. Incumbido entretanto de calar a Rádio Conakri II, devido à ineficácia do grupo "Hotel" no cumprimento desta missão, dirige-se ao edifício referenciado destruindo-o, verificando-se porém ser outra a rádio que transmitia; a Rádio Conakri I. Mais uma falha do departamento de informações. a neutralização do Camp Boiro - campo de treino militar - ficou a cargo dos vinte homens do Front, comandados por Ibrahima Barry que preferiram não regressar, para incentivar  a revolta popular, distribuindo as armas e munições  que se encontravam nos respectivos paióis pela população e neutralizando as forças leais ao regime de Conakri, acabando dizimados pelo exército da Guiné Conakri.

      "Mike", grupo constituído por cinquenta homens e comandado pelo Alferes Sisseco da Companhia de Comandos Africanos e por Therno Dialo - chefe militar do Front -, após um quilómetro em marcha acelerada toma sem grande dificuldade o campo militar de Samory onde se depara com grande quantidade de munições e armamento. Sisseko acaba por ser atingido na boca por uma roquetada inadvertidamente disparada pelos inábeis homens do Front eventualmente assustados pelo black-out repentino da cidade. 

      "Hotel", grupo constituído por dez homens, comandado pelo Alferes Jamanca, assessorado por Técnicos do Front, incumbido de destruir a emissora Boulbinet e que inexplicavelmente ficou "colado" ao solo até à ordem de reembarque, frustrando mais uma missão. Alegou mais tarde Jamanca, desconhecimento da localização do edifício onde estava instalada a rádio.

      "Alfa", "Bravo", "Charlie" "Delta", "Echo" "Foxstrot" e "Golf", compostos por comandos africanos e elementos do Front, largam da "Bombarda" em quatro vagas e tomaram a Gendarmerie, graças ao apoio do Capitão João Bacar que atacou uma coluna de blindados prestes a intervir, provocando várias baixas. Foi o grupo "Alfa" encarregado da neutralização de Sekou Touré, missão fracassada pela fuga deste à última hora refugiando-se num edifício não muito longe, após fuga da guarda do palácio ao avistar os invasores.

      O grupo "Papa", viu revogada a sua missão de "cortar a cidade em dois tomando o istmo.

Curiosidades:

      Parece que havia uma relação de parentesco remota entre Alpoim Calvão e Amílcar Cabral; o 5º avô daquele era irmão do 6º avô da mãe de duas filhas deste.
      No reembarque, que dura até às 0915, é efectuado perante numerosa multidão que se aglomerava à beira-mar vitoriando as forças invasoras num ambiente quase festivo. 
      Os prisioneiros resgatados, comprometeram-se ao silêncio por escrito perante o governo português.

Reflexão:
      Também aqui fica demonstrado que há ditaduras boas e más conforme a origem do ditador e dos interesses em jogo, independentemente do grau de opressão. Tal distingue os Libertadores dos libertários.           

Créditos: "Honra e Dever" por Rui Hortelão, Luis Sanches de Baêna e Abel Melo de Sousa, editora "Caminhos Romanos".     

1 comentário:

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