sábado, 4 de maio de 2013

Era uma vez uma revolução; de José Manuel Fernandes, comentado por António Barreto

Aprecio o trabalho jornalístico de José Manuel Fernandes (JMF)  por revelar características de livre-pensador, que muito prezo, à semelhança, por exemplo, de Henrique Raposo, Henrique Monteiro,   Alberto Gonçalves, Vasco Pulido Valente, Maria de Fátima Bonifácio, João César das Neves, Medina Carreira e outros profissionais dos mais variados setores.
 
JMF envolveu-se intensamente na luta política estudantil no Liceu que frequentava em Lisboa, o Pedro Nunes, no período pré e pós 25 de Abril, jenuinamente crente na utopia socialista que, na época, alastrava nos estabelecimentos de ensino, alvo prioritário da "evangelização" comunista promovida pelo PCP, que transformou as escolas públicas naquilo que ainda hoje são; fabriquetas de guevarazinhos dependentes do erário público.
 
Com uma escrita cuidada e grande minúcia, JMF, dá-nos um panorama muito amplo das dinâmicas políticas no meio estudantil, das lutas entre as várias fações, do seu funcionamento interno e das características mais comuns dos respetivos militantes. Por lá andavam Zita Seabra na qualidade de dirigente da UEC - União de Estudantes comunistas -, a belíssima, malograda e esquecida Sita Vales - da célula da Zita -, Maria José Morgado, Saldanha Sanches e Durão Barroso - militantes do MRPP -, Nuno Crato, Jorge Costa Pinto, João Carlos Espada, Henrique Monteiro, Francisco Louçã, Miguel Portas...- PCP (R ou ML).
 
Uma das ilações que tirei deste testemunho, coincidente com a minha própria observação à época, é que, quem andava metido nestas molhadas eram predominantemente os filhos da classe média alta;  ou filhos de funcionários públicos ou de pequenos e médios comerciantes ou industriais. Suportados por famílias mais ou menos abastadas, eram, geralmente, meninos com mesada, muitos deles com pópó, e culturalmente, um passo à frente dos filhos da arraia miúda.  Operários, os grandes revolucionários da teoria marxista, eram espécie rara naqueles grupelhos. Porém, muitos deles pagaram corajosamente, bem caro, o preço da irreverência utópica. Muitos deles são hoje quadros partidários de relevo, alguns alcandoraram-se aos mais altos cargos políticos, outros são académicos de referência, ainda outros dedicaram-se ao jornalismo com distinção, escritores, poetas e até...mendigos! Hoje podemos ver, quer os seus atuais herdeiros políticos, quer alguns camaradas, debitando bastas baboseiras, cristalizados em conceitos retrógados, quase todos eles...professores universitários! Quem tinha de pôr o pão na mesa ou ajudar a fazê-lo, operários ou filhos pobres, preocupava-se em trabalhar  e não ir bater com os costados nas matas de África.
 
Dá-nos conta, JMF, da ditadura partidária que impunha a todos os militantes a total sujeição ao partido em nome dos tais amanhãs que iriam cantar; o tal paraíso na Terra que, ainda hoje, alguns "esclarecidos" esperam alcançar. Muitos deles, como JMF, acabaram por "abrir os olhos" a partir desta realidade e do conhecimento do tenebroso Estalinismo bem como do tremendo embuste da Revoluçãio Cultural Chinesa. 
 
Interessantíssimo o seu testemunho do 25 de Novembro que passo a citar, que muitos parecem ter esquecido e outros se têm encarregado de distorcer: (a partir da página 201)
 
"Os acontecimentos precipitaram-se quando, na madrugada do 25 de Novembro, os páraquedistas da Base aérea de Tancos se revoltaram e decidiram ocupar as bases aereas de Monte Real e do Montijo, e o Comando da Região Aérea de Monsanto. Houve também movimentações do RALIS, da EPAM (que ocupou a RTP) e da Polícia Militar (que toma a Emissora Nacional). O principal teatro do Drama foi contudo Belém, onde Costa Gomes manobra para evitar a guerra civil. O Estado de Sítio foi declarado na região de Lisboa e Otelo convocado pela Presidência da República, acabando detido em Belém e deixando o Copcon sem comandante. Ao mesmo tempo, as tropas fiéis aos moderados contra-atacavam. Os Comandos da Amadora, chefiados por Jaime Neves, retomavam, primeiro a Base de Monsanto e depois, o quartel da Polícia Militar, na Calçada da Ajuda, paredes meias com o Palácio de Belém. Foi aí que ocorreu o principal confronto. Houve tiros e vítimas mortais; dois homens dos comandos (o Tenente Coimbra e o Furriel Pires), um da Polícia Militar (o aspirante José Bagagem, que era militante da UDP e que nós tentaremos, mais tarde, transformar em herói).
 
Nessas horas, no momento decisivo, quando por todo o lado se antecipava a revolução, Álvaro Cunhal percebeu que a relação de forças não lhe era favorável e mandou parar as tropas que lhe eram mais favoráveis, com destaque para as da Marinha e, nestas, as de Fuzileiros. "Os Párequedistas tinham virado, tinham passado para o outro lado, os Comandos estavam na rua e só a Marinha se mantinha fiel à revolução - e só com a Marinha não se podia ganhar uma revolução", explicaram a Zita Seabra quando a mandaram desmobilizar as UECs que aguardavam ordem para avançar. Pouco depois, o próprio Álvaro Cunhal falaria aos principais funcionários do partido e disse duas coisas que a antiga dirigente da UEC guardou na memória: "que teve garantias de Melo Antunes de que não ia ser preso e que o PCP não ia ser ilegalizado. E recordou a obra de Lenine, "Um passo atrás, dois passos à frente" escrita nas vésperas da revolução de 1905. Íamos dar um passo atrás para no futuro podermos dar dois passos à frente"."
 
"Do nosso lado estava-se mais com as "Teses de Abril", pelo que ninguém deu ordem o major Tomé (que mais tarde viria a ser dirigente e deputado pela UDP) e aos outros responsáveis da Polícia Militar para não avançarem. Derrotados pelos Comandos, seriam presos e levados para a prisão de Custóias no Porto."
 
Ora com que então, o grande patriota Cunhal definiu a estratégia que perdura; "um passo atrás hoje para dar dois passos à frente amanhã"! Com o país falido, o primeiro passo à frente já foi dado pela mão dos sindicatos controlados pelo PCP; o segundo estão a tentar dá-lo agora, instigando a população à revolta. Haverá por aí algum herdeiro militar de Jaime Neves?  Não há Democracia sem democratas!
 
Retomando JMF: " Caso tivésemos tomado o poder - ou o PCP tivesse tomado o poder - não duvido que os nossos devaneios mais ou menos adolescentes em breve se tornariam num pesadelo totalitário. Pesadelo de que também nós seríamos vítimas."

"Eu não deixei de ser comunista para me tornar num socialista moderado. Eu não continuei a acreditar na bondade dos fins por que lutam os comunistas, fins que em boa parte são partilhados pelos socialistas e por todos os que se reclamam da herança marxista ou são de alguma forma seus herdeiros. Não me limitei a achar que os métodos estavam errados. A minha rotura questionou toda a doutrina e os seus fundamentos mais longínquos, e sinto que isso não aconteceu por acaso. Aconteceu porque não fui um mero companghon de route, fui antes um verdadeiro devoto, ou, como então se dizia, um devotado "soldado do proletariado"."

"Estes estudos, bem como o posterior desenvolvimento da ciência, a psicologia evolucionista, acabaram naturalmente por me fazer afastar da ideia de um homem puro original que a sociedade teria estragado. Sem querer entrar aqui nas longas e interessantes controvérsias sobre "nature versus nurture" (natureza versus educação), algo se tornou claro para mim; a natureza humana não é intrinsecamente boa, e não é a sociedade que a estraga. Pelo contrário, é a civilização que permite aos homens aprender a limitar características naturais que vemos como anti-sociais, tornando-os também capazes de viverem de forma pacífica e colaborativa em sociedade."

Interessante, porém, regressam, agora com chancela científica, as velhas teses fundadoras dos fundamentalismos racistas que tantos danos têm causado à humanidade!

António Barreto

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