domingo, 25 de fevereiro de 2018

Democracia e cultura democrática, são coisas diferentes.

        
Quarenta e dois anos depois de estabelecida a democracia em Portugal, ainda há setores da sociedade que não conseguem ligar com o fenómeno Benfica Uns, outrora adversários hoje inimigos, justificam os fracassos do passado, com alegados favorecimentos espúrios ao clube da Luz, atribuídos pelos títeres do antigo regime, teimando em apresentar-se como credores históricos de méritos desportivos, considerando legitimadas as benesses de que atualmente disfrutam, como corolário da alegada democratização política. Outros, elegeram o popular clube como instrumento de manipulação mediática, caracterizando-o, ainda que implicitamente, como símbolo do autoritarismo e centralismo, cuja decadência resultaria do alegado progresso sociopolítico, fruto da sua ação "libertadora" que todos poderiam testemunhar e premiar.  Uns e outros, decidiram transformar o futebol em instrumento de afirmação política regional ou nacional, alimentando uma guerra verbal e material com uma das poucas entidades que têm uma forte característica agregadora e identitária nacional, considerada resistente ao desejado fracionamento político-administrativo do território; o Benfica. Outros ainda, servem-se do clube encarnado como instrumento de diversão e ofuscamento de episódios infelizes da vida coletiva ou de mera prova de vida política.
 
      Infelizmente não faltam exemplos próximos da segregação social, alimentados na sombra por elites regionais, servindo-se de gente sem eira nem beira, nem escrúpulos. Em algumas cidades, como Porto, Vila Nova de Gaia, Braga, Guimarães, e agora, Samora Correia e Faro, onde parece perigoso a qualquer cidadão expor pacificamente, isolado ou associado, o seu benfiquismo. Dolorosamente exposta hoje em dia, a degradação  das funções públicas, sucedendo-se em múltiplos setores, anunciou-se com exuberância nos primórdios do novo regime, no setor do desporto. O êxtase da liberdade, a frustração desportiva e a falta de escrúpulos dos novos senhores do futebol, associado  à cumplicidade ou covardia das autoridades públicas, transformaram-no numa gigantesca farsa e num fator de conflito social persistente. A repetida falência das instituições no escrutínio e correção das vicissitudes do desporto, sugerem algo mais além de descontrolos circunstanciais.

      Contrastando com a democracia política emergente em 75, o futebol, paradoxalmente, entrou na idade das trevas; controlado infamemente pelas novas maiorias com centro de gravidade na cidade do Porto, estas, não hesitaram em impor a sua  lei, a lei de que, hipocritamente, se diziam vítimas na vigência do velho regime. Desse período tenebroso assistimos incrédulos a impunes invasões de campo com agressões a dirigentes adversários e árbitros; agressões e atropelamentos impunes a jornalistas dissidentes numa qualquer viela esconsa, ameaças de morte proferidas em público a dirigentes rivais, agressões a autarcas incómodos, ataques a viaturas de atletas e dirigentes rivais com risco de morte, vandalizações sucessivas de agremiações de clubes rivais, aeroportos e estabelecimentos diversos, ameaças e agressões a atletas dissidentes, tudo acompanhado de sucessivos dichotes de mau gosto que os covardes, alguns bem tosados, classificavam de "fina ironia". No terreno de jogo o erro grosseiro tornou-se norma consentida por todos os que não ousavam arriscar um "lugar ao sol" no panorama do desporto nacional.. A dissidência pagava-se caro; jogador dissidente acabava excluído, árbitro descuidado descia de categoria, clube espevitado ficava sem financiamento e descia de divisão. Esvaíram-se, ingloriamente, em recursos os principais rivais do clube dominante. Relegados para a segunda liga quase todos os clubes abaixo do mondego, ainda por lá militam, quase todos vítimas da "nova ordem" instaurada com a "conquista" da almejada liberdade política; Atlético, Oriental, Montijo, Barreirense, Campomaiorense, Elvas, Farense, Portimonense - curiosamente, esta época regressado ao primeiro escalão  -, Olhanense, Lusitano, desapareceram do mapa do futebol primodivisionário.

      Com todos os defeitos que se lhe possam apontar, após a infame submissão de Manuel Damásio ao poder do norte,  um só homem foi capaz de enfrentar os novos poderes. Vale e Azevedo. Destemido, denunciou-os e enfrentou-os como pôde, chegando a encostar às cordas a entidade que viria a ser um dos pilares da supremacia portista. A Olivedesportos. Imprudente, quase só - honra a José Manuel Capristano, que nunca o traiu -, acabaria por cair na teia do sindicato bancário que apoiava os rivais, cometendo irregularidades que lha haveriam de custar, salvo o erro, 17,5 anos de prisão - cúmulo jurídico com algumas penas de origem não desportiva. Condenado, ironicamente, por um confesso adepto portista - alegado dragão de ouro -, pena que cumpriu na sequência de complexas peripécias, algumas das quais, desprestigiantes do aparelho judicial; mandar prender um homem recém-libertado após 3,5 anos de cadeia, é, simplesmente desumano e violador da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Tal como é desumano e indiciador de empenhamento persecutório a abertura de novo processo, agora contra sua mulher, após cumprimento dos 17,5 anos de prisão. Mais que castigar o prevaricador, talvez se pretenda dar um sinal à sociedade em geral e aos benfiquistas em particular, dos desígnios dos novos tempos. Benfica, sim, mas pequenino, submisso, errático vencedor, uma espécie de selo de garantia da "democracia". Se não é, é o que parece, e na esfera pública, o que parece, é.

   Esta fase tenebrosa do desporto nacional, coincidindo com o ciclo político, sofreu um profundo abalo por efeito do processo conhecido por "Apito Dourado". Uma parte sã do país, cumprindo os trâmites da legalidade, luta pela restituição da dignidade do desporto. Após aturada investigação policia,l os vastos elementos de prova reunidos dão lugar a acusações e julgamento dos vários arguidos. Paralelamente, os principais partidos do arco da governação, entendem-se e concluem mais uma reforma dos códigos civil e penal, de que resulta a anulação da validade das provas associadas a escutas, ainda que efetuadas ao abrigo da lei. O resultado traduziu-se na nulidade de quase todo o acervo de provas reunido e na absolvição dos principais arguidos, tendo sido condenada apenas, a "arraia" miúda. Ficou então claro que certa corrupção parecia consentida, quiçá apadrinhada, por agentes políticos de relevo, regionais e nacionais, que certa promiscuidade estava instalada em vários organismos públicos, incluindo órgãos de soberania. Os casos que, hoje, enlameiam a praça pública, assim o demonstram.

    Foi o Benfica de Luís Filipe Vieira, com a criação da sua TV (BTV) e a recuperação dos direitos desportivos do clube, que quase dava o golpe de misericórdia na "nova velha ordem". A concentração inamovível dos direitos desportivos dos clubes numa só entidade afeta ao clube então dominante, permitia gerir interesses e desempenhos dos vários agentes no jogo, a ponto de garantir as vitórias daquele, sem grande esforço. O dinheiro entrava a rodos e os sucessos atribuíam-se, para descanso das almas, ao desempenho da "exemplar" estrutura e à democracia. Coisa nunca vista!

   Ao pujante crescimento da BTV sucedia o definhamento da sua principal congénere - anterior detentora dos direitos do clube -, agravado com a profunda crise económica superveniente em outras entidades do respetivo grupo no setor da comunicação, consequências da crise geral. A simultânea crise que se abateu sobre os tradicionais aliados políticos do grupo, facilitadores de financiamento deste, contribuiu para o acentuar do quase descalabro de toda a organização.

   Alterações profundas ocorridas no âmbito da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, numa luta intensa conduzida por Mário Figueiredo, acabaram com a exclusividade de aquisição dos direitos de transmissão dos jogos dos clubes, que se verificara até então, implementando-se uma profunda reestruturação no setor da arbitragem conduzida por  Vitor Pereira.

      Foi toda esta conjuntura, fruto de circunstâncias aleatórias - crise económica e política nacional - e as opções estratégicas de gestão implementadas na LPFP e no Benfica, que abalaram os espúrios alicerces competitivos da agremiação dominante e  restituíram alguma normalidade ao futebol nacional, da qual resultou o crescimento competitivo do clube encarnado e os recentes sucessos conhecidos.
     
   Hoje, com as alterações verificadas nos ciclos económico e político, a reestruturação ocorrida na comunicação social e as transformações verificadas no âmbito da Liga, apesar da introdução do VAR, assistimos a um revivalismo da "velha ordem", esperemos que, de efémera duração. Erros grosseiros de arbitragem continuam a ocorrer com espantosa inanição dos órgãos institucionais respetivos e a condescendência de grande parte do comentarismo profissional. Não tardarão loas aos supinos méritos da "exemplar estrutura".

   A intolerância aos adeptos do Benfica continua a verificar-se nalguns locais, alimentada por doentia obsessão de afirmação política regional. Um caso de reiterada discriminação consentido pelas autoridades as, quais, implicitamente, mostram estar em sintonia com tais práticas antidemocráticas. Os recentes episódios ocorridos em Braga ilustram esta realidade. A edilidade local numa demonstração de descortesia, parece ter cedido ao clubismo, escusando-se a receber nos Paços do Concelho a comitiva benfiquista, apesar de estar ao corrente do enorme contingente de bracarenses simpatizantes do popular clube lisboeta. A Casa do Benfica local continua a ser alvo de reiterados atos de vandalismo sem que as correspondentes autoridades, incompreensivelmente, lhes ponham termo. Um adepto encarnado, no final do jogo da consagração da conquista do título dessa época, é barbaramente agredido por um graduado da PSP em frente ao seu Pai e seu filho, sem motivo aparente, arrastando-se o processo na corporação e nos tribunais, sem fim à vista. Por essa ocasião, nas vésperas desse jogo, uma figura destacada local tem a lata de aconselhar os benfiquistas a moderação nas comemorações, deixando no ar, eventuais riscos de represálias por parte da população local. Recentemente, na zona do grande Porto, um jovem é assassinado à pancada por ter entrado num bar com a camisola do Benfica vestida. De uma outra vez, mais remotamente ainda em Braga, um jovem é convidado a sair pela sua professora, por se apresentar vestido com a camisola do Benfica a uma palestra dum jogador do clube local, considerando-o um ato provocatório.

   Enfim, a própria Justiça tem tido comportamentos algo caricatos em vários episódios ligados ao futebol, dando a ideia de conivência de sujeição ao primado de certa região. Hoje mesmo a Comunicação Social dá conta da insatisfação das autoridades Judiciais - DCIAP - com certa postura do Ministério Público no julgamento do caso da segurança ilegal a certos dirigentes desportivos. Até para um leigo é incompreensível que seja o responsável da acusação, em pleno Tribunal, a defender a inocência do arguido, após ter concluído da evidência das provas de ilícito em sede de investigação. Algo já ocorrido com o mesmo arguido em outros processos. Outros exemplos de teor semelhante, não faltam.Tudo isto vai consolidando a ideia de que o fracionamento do país tem vindo a ocorrer a nível social e institucional através do futebol, e que, tal resulta de uma ampla concertação  política com interesse na propalada regionalização.

   Á política o que é da política, ao futebol, o que é do futebol. Vivemos uma democracia, apresentem-se à sociedade os argumentos idóneos da regionalização, contra e a favor, debatam-se, discutam-se, e decida-se conforme a vontade do povo. Deixem o futebol fora do processo.

Deixem o Benfica em paz.

Peniche, 24 de Fevereiro de 2018

António Barreto (JR) 

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

O Direito à dignidade (2)

    
Antes de mais refiro que tenho uma confiança inabalável na Srª Procuradora Geral, mas não ponho as mãos no fogo pelo Ministério Público no seu conjunto; os frequentes conflitos internos e irregularidades a que, estupefactos, temos "assistido", suscitam, infelizmente, alguma reserva. Oxalá tais dúvidas sejam dissipadas e possamos contar com o contributo da magistratura para assegurar a credibilização do regime democrático..
 
   Posto isto, vamos ao segundo caso. Sabe-se pouco, cá fora. Parece que o atual Presidente do Benfica foi constituído arguido, com termo de identidade e residência, por ter prometido um cargo numa futura instituição do clube a um magistrado, em troca de, este, influenciar a agilização de um processo do foro privado em curso, há sete anos,  com a Autoridade Tributária (AT) como contraparte.
 
   A ser assim, estaremos perante um alegado crime de tentativa de corrupção para ato lícito ou ilícito. O pesada coação aplicada - termo de identidade e residência -, sugere crime grave e prova concludente. Porém, visto daqui, é difícil entender o receio de fuga do arguido, dadas as circunstâncias associadas às suas responsabilidades no clube que dirige. Com o campeonato a decidir-se e o clube na corrida pelo título, e com os projetos infraestruturais desportivos em curso, não me parece razoável, impor tal medida de coação. O futuro permitirá avaliar melhor a situação, sendo prematuro avançar algo mais, de momento.
 
   Porém há outra circunstância que me suscita perplexidade. Nada mais nada menos, que a contrapartida pelos alegados "bons ofícios" do magistrado. O conhecido Presidente, segundo noticiou a imprensa, terá prometido ao dito magistrado um lugar na futura universidade do clube. Ora vejamos: os factos que suscitaram o litígio em curso com a AT, ter-se-ão verificado em 2010! Iniciaram-se recentemente no Seixal as obras de construção de campos de futebol, de novos alojamentos e de um colégio. Este projeto deverá demorar 3 anos até estar a funcionar em pleno e estabilizado. Ora quanto à universidade, nada se sabe por enquanto, mas, admitindo que haja decisão tomada nesta matéria, não será viável nos seis próximos anos. De modo que, podemos concluir, que o Sr Dirigente prometeu ao Sr magistrado e este parece ter aceitado, um lugar, presumimos que de Reitor, numa eventual universidade que, na melhor das hipóteses, estaria operacional daí a 10 anos, admitindo que tal conversa tenha acontecido em 2013, não sabemos! Não lembra ao "diabo"!, É possível que haja algo mais no processo, mas, nenhuma pessoa sensata considerará a eventual contrapartida referida um suborno, simplesmente, porque imaterializável no curto prazo. Por outro lado, é perfeitamente normal que dois sócios de uma agremiação desportiva, no pleno uso dos seus direitos de cidadania, conversem e concertem projetos, no âmbito das prorrogativas inerentes, competindo aos respetivos consócios pronunciarem-se nas instâncias próprias.
 
   Espera-se rapidez na análise do caso, sob pena de, mais uma vez, sair ferida a credibilidade de uma instituição fundamental enquanto garante da democracia e da dignidade dos cidadãos.
 
(Alex Colville - Woman at Clothesline,1956-57)
 

domingo, 4 de fevereiro de 2018

CARUMA: O Gebo e a Sombra (peça de teatro)

CARUMA: O Gebo e a Sombra (peça de teatro): I - Raúl Brandão, um dos homens da Seara Nova, 1923, procurou transmitir nas suas obras o ressentimento provocado pela mudança brutal que o...

O Direito à dignidade

      Num Estado de Direito democrático, a Lei modera a vida dos cidadãos livres que aceitam cumpri-la como contrapartida da sua integração na respetiva sociedade.  Aos Tribunais compete dirimir os conflitos emergentes, e aos mandatários dos cidadãos - Magistrados do Ministério Público -, identificar e levar à presença dos Tribunais os autores de crimes públicos. Perante a ancestral tentação de abuso de poder do homo sapiens e apesar da evolução cultural, religiosa, tecnológica e política que o transformaram no homem moderno, contrariamente aos desígnios de Sócrates para a sua República, é no poder judicial que reside o garante da coesão social e do progresso. Para que tal se verifique, porém, é imperioso garantir a independência, universalidade, transparência, coerência e celeridade da Justiça, requisitos associados à cultura cívica dos respetivos profissionais e à diligência do poder executivo.  Pode dizer-se que uma sociedade entra em decadência quando os seus cidadãos deixam de confiar no sistema judicial, e, se "a Justiça julga os casos, o Povo julga a Justiça". É pois enquanto povo que me atrevo a tecer algumas considerações sobre alguns casos que afetam dirigentes do clube de que sou associado, mediante a informação que tem vindo a público.

   O primeiro caso, que acaba de ser arquivado pelo Ministério Público (MP), é o dos bilhetes que o Ministro das Finanças parece ter pedido ao Benfica, para assistir a um jogo de futebol, tendo obtido acesso ao camarote presidencial para o efeito por deferência da respetiva Direcção.

   Nada a assinalar, nem indício de ilícito nem digno de censura; nenhum membro de qualquer dos órgãos de soberania perde os seus direitos de cidadania. Contudo, conforme as designadas "regras não escritas", algumas já convertidas em código, espera-se de um dos titulares de soberania, alguma reserva e prudência de conduta. Não tem qualquer razoabilidade esperar-se que um Ministro se disponha a "enfrentar" a fila da bilheteira para assistir a um jogo. Contactar os serviços do clube a pedir bilhetes, parece-me, pois, apropriado, mas também é verdade, que poderia tê-los adquirido no serviço on-line, poupando-se a contrariedades previsíveis, tendo em conta a "chafurdice" em que vive a política lusa. Provavelmente, não resistiu à deferência com que esperava ser tratado pelos dirigentes do "seu" clube. Provavelmente. Já da parte do clube nada há a assinalar; os seus responsáveis agiram conforme as regras de cortesia internas e socialmente aceitáveis. Os camarotes presidenciais têm, precisamente, esse fim, acomodar dirigentes e figuras notáveis, a convite.

     Contudo parece haver indícios de favorecimento de entidade privada, associada ao Dirigente máximo do clube em causa, em sede fiscal. Tal poderia ser entendido como contrapartida pela oferta de lugares e assim, a verificar-se, configuraria a ilícito de tentativa de corrupção para ato lícito, verificada a conformidade legal da decisão correspondente da Autoridade Tributária, bem como o nexo de causalidade entre as duas circunstâncias. É neste âmbito que se pode considerar imprudente a iniciativa do governante em causa, mais do que a do clube, cuja recusa consubstanciaria uma descortesia grosseira e, até, hostil. Tendo em conta a improbabilidade de prova de nexo de causalidade, e o alarme social associado à publicitação do caso, não custa considerar igualmente imprudente a condução do processo pelos agentes da Justiça, apesar do rápido arquivamento do caso.

   Concluindo, o caso exigia discrição no apuramento da verdade, o que, não se tendo verificado, deixou, injustamente, o labéu da promiscuidade e da censura pública nas pessoas envolvidas, mácula quiçá, indelével na sua honra e dignidade, configurando um ato displicente por parte das autoridades públicas, cujo contrato social é, precisamente, contrário: zelar pelo direito do cidadão à sua honra e dignidade.

(continua)  

sábado, 20 de janeiro de 2018

Benfica; financiamento e formação

   De acordo com uma crónica do CM de 13/01/2018 no seu suplemento Sport, no final da época de 2016/2017, a sociedade Benfica SAD registava um passivo de 438,3 milhões de euros e 284,5 milhões de euros de dívida financeira, valores sensivelmente idênticos aos que se verificavam no início do ciclo do tetra campeonato em 2013/2014. Neste período realizou 359,3 milhões de euros em vendas, cujos custos ascenderam a 57,8 milhões, resultando num resultado líquido de 301,5 milhões, reduziu o passivo bancário de 190 milhões para 68,5 milhões e aumentou os empréstimos obrigacionistas de 95 milhões para 216 milhões. Também recentemente, a UEFA, deu conta de um passivo líquido da Benfica SAD de 309 milhões de euros; o segundo maior dos clubes europeus, logo atrás do Manchester United.
 
   Se tivermos em conta a atual conjuntura bancária em Portugal, caracterizada pelo encerramento de vários bancos e a exigência aos restantes, pelas autoridades de supervisão, de aumento dos rácios de capital, menor risco nos empréstimos concedidos e de limpeza das imparidades dos seus balanços, e ainda o encerramento do fundo de investimento da SAD por imposição da FIFA, perceberemos a enorme pressão financeira que se abateu sobre o Benfica. Com uma dívida líquida de cerca de 150 % do seu orçamento anual - grosso modo, de 200 milhões de euros; o do United, apesar de maior em termos absolutos, constitui apenas cerca de 30 % da faturação anual deste clube, próxima dos 1000 milhões de euros, o Benfica atingiu o limite da sua capacidade de endividamento financeiro.

    A solução encontrada para fazer face à pressão bancária - amortização do capital - e ao encerramento do fundo,  foi a formação. Mesmo a tempo! Com efeito, graças ao investimento iniciado nos dez anos anteriores, o Benfica conseguiu colocar vários jovens das suas escolas no mercado, realizando o capital necessário à resolução do fundo e aos compromissos bancários do momento. Uma contrariedade para os adeptos, que esperavam desfrutar  da excelência dos seus ídolos emergentes, dos quais, o mais mediático, Bernardo Silva, mas também João Cancelo, Ivan Cavaleiro e outros.

   Superado o momento compreende-se a incontestabilidade da aposta na formação, quer pelo financiamento direto que propicia - com maior valor acrescentado face à redução de custos correspondentes -, quer pela redução de custos na aquisição externa de jogadores para a equipa de seniores. O desafio consiste em fazê-lo mantendo ou elevando, quer o nível da formação quer o da competitividade desportiva da equipa sénior, sem a qual nada funcionará. Compreende-se assim o projeto de expansão da infraestruturas do Seixal, que visam massificar a formação; alargando a base de recrutamento, melhora o caudal de jogadores de alto nível.

   O fundo de investimento da SAD constituía uma almofada financeira que permitia estabilizar a tesouraria e a equipa, dando-lhe competitividade, e ainda a realização de apreciáveis mais-valias regularmente. Infelizmente, com o falso pretexto da origem suspeita dos capitais dos fundos, provavelmente pressionada pelos grandes clubes, a FIFA impôs a abolição dos mesmos. Inexplicavelmente consente certas operações, essas sim, escandalosas, de patrocínio das competições por entidades proprietárias de clubes que nelas participam. É por estas e por outras que, quer a FIFA, quer a UEFA, carecem de credibilidade junto dos adeptos do futebol.

   Contudo, uma realidade preocupante interpela-nos; apesar da receita de vendas que se verificou no período indicado, o passivo manteve-se - note-se que a UEFA regista uma redução do passivo líquido de oito por cento, cerca de 26 milhões de euros. Compreende-se a necessidade de investir para ganhar, mas não se continuará a ganhar amarrado a um passivo tão elevado. Este é o grande desafio a sobrepor-se ao anterior, a exigir gestão económica mais criteriosa. Grosso modo, podemos identificar elevados custos de intermediação - 57,5 milhões de euros - que urge reduzir a metade. Por outro lado, a estratégia de recrutamento de jogadores deve ser revista; o clube continua com cerca de uma centena de jogadores nos seus quadros disseminados por outros clubes!Compreendo que constitua um negócio paralelo que propicie um fluxo financeiro regular, mas cujos resultados carecem de validação. Há que fazer um balanço económico setorial detalhado que permita tirar conclusões definitivas. Quanto a mim, não se justifica, quer pelos encargos diretos, quer pelo esforço administrativo e comercial inerente, quer, sobretudo, pela aposta na formação. Identificar e eliminar gorduras numa estrutura que continua a crescer é tarefa a não descurar, tal como a redução dos custos de financiamento, através da rotação do capital. Por mim, sugeriria uma estratégia de redução gradual do passivo alocando à amortização do capital, por exemplo, 50 % das mais-valias da venda de ativos, implacavelmente.

   Um olhar crítico do endividamento do Benfica SAD, remete-nos para a opção da construção do Estádio, pois é essa a causa primordial. Foi a opção política de realização de um grande evento desportivo em Portugal que arrastou os clubes nacionais para um endividamento que os asfixia, retirando-lhes competitividade face aos congéneres externos. No caso do Benfica, é altura de os benfiquistas fazerem um balanço da opção pela construção do novo estádio. Recordo o propósito anunciado de o financiamento ser liquidado em doze anos com o acréscimo de receitas que proporcionaria e recordo o projeto de requalificação do velho estádio, cujo custo era de 4 milhões de contos - cerca de 20 milhões de euros. Salvo o erro, o passivo do Benfica nessa época era de 2 milhões de contos - cerca de 10 milhões de euros. Com um passivo de 30 milhões de euros, um investimento assegurado de 100 milhões na constituição da SAD, a competitividade do clube seria maximizada logo no primeiro ano e as vitórias poderiam ter surgido mais cedo. Sei que pouco adianta, agora, este exercício, mas também sei que compreender o passado é a melhor forma de prevenir o futuro.
  

   PS: Excelente vitória de 3-0 sobre o Desportivo de Chaves, graças a um futebol de grande qualidade até à última meia-hora de jogo, ocasião em que Rui Vitória mandou abrandar e o jogo se tornou fastidioso. Estádio cheio, dinâmica fantástica na recuperação da bola, criatividade e intensidade na circulação da bola e movimentação dos jogadores, e grandes golos, em especial o primeiro. A equipa sintonizou-se com os adeptos ganhando maior motivação. Preocupação com a lesão de Krovinovik. Dois bons Treinadores que se limitaram a explicar o jogo proporcionando a quem os ouviu, a oportunidade de aprender a desfrutar melhor do espetáculo do futebol. Luís Castro, mais uma vez, mostrou ser um portista invulgar, a merecer a minha saudação.

Força Benfica!

  



  

  

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

O Benfica quer ganhar

    
Depois da passagem vitoriosa por Moreira de Cónegos, a equipa do Benfica vence a equipa do Braga com uma exibição convincente, mostrando-se determinada a lutar pelo título. Perante um Braga táticamente bem orientado e dotado de bons jogadores, os jogadores encarnados apareceram confiantes e determinados, no novo modelo tático, concretizando por três vezes em lances bem definidos de grande primor técnico. Pressionando em todo o campo retirou iniciativa ao adversário. Criatividade e intensidade foram os outros ingredientes para levar de vencida os arsenalistas. Apenas nos cerca de vinte minutos finais a inesperada pressão do Braga fez vacilar os encarnados, rendendo um golo aos minhotos, que ameaçaram mais estragos. Um lance de antologia já nos descontos, alardeando a garra e talento dos benfiquistas, pôs fim ao "susto", estabelecendo o resultado final.
 
   Notam-se ainda erros primários, como alívios defensivos para a zona frontal, passes ao adversário, retenção inoportuna da bola, centros mal medidos e, ainda, alguma desarticulação no setor defensivo - como foi o caso do golo sofrido (algo parecido ao do Sporting). Julgo que terá faltado, também, melhor gestão do esforço, uma vez que, na ponta final, alguns defesas parecia terem "falta de pernas". Há margem de progressão, assim o Treinador e Dirigentes consigam manter o balneário blindado ao "estardalhaço" que anda por fora.
 
   Varela saíu em falso, não sei porquê, Ruben Dias continua a aliviar para zonas perigosas e Grimaldo falhou a marcação no lance do tento arsenalista. De resto, todos bem, com Cervi, Krovinovik, Sálvio e Jonas endiabrados e Raul a justificar mais minutos.
 
   Soares Dias, não esteve bem. Parece condicionado. Ele, e os colegas em situação idêntica, deviam recusar apitar, explicando os seus motivos. Assim é que não é nada.
 
   A interrupção Estoril-Porto ao intervalo pode justificar-se pelas razões aduzidas - de segurança -, mas o que é certo é que, tendo em conta as personagens envolvidas e o resultado desfavorável aos azuis, fica sempre a dúvida. O que é certo é que, quando a Justiça falha, o crime se perpetua.
 
(Cândido Portinari - Lampião e Maria Bonita, 1947)

sábado, 6 de janeiro de 2018

Hara Kiri


    Paradoxalmente, com o explícito objetivo de conquistar o quinto campeonato consecutivo, o Benfica parece ter cometido "suicídio" desportivo graças a desastrosas e sucessivas medidas de gestão, abrindo o caminho do título aos adversários. A saída de quatro jogadores invulgares,  fragilizou os respetivos setores abalando a confiança dos restantes, inseguros da valia da nova formação. As alternativas às saídas não corresponderam em nível idêntico, tendo diminuído as capacidades defensiva e ofensiva, desequilibrando a balança da competitividade em favor dos adversários. Com efeito, Ederson é único, se não o é já, em breve será o melhor guarda-redes do mundo. Um caso raro, com grande impacto na equipa., direto, pelas defesas "impossíveis" e assistências, e implícito, pela confiança que gerava nos colegas . Nelson Semedo é um defesa direito de topo, rápido e criativo, jogador de área a área, defende bem e ataca melhor, destemido nos duelos, acede à linha de fundo facilmente, assistindo, ou flete para dentro assistindo ou finalizando. Lindeloff ,sem alardear grande excelência técnica, garantia com Luisão, percebe-se agora, o quase perfeito sincronismo do eixo defensivo, imbatível no jogo aéreo. Mitroglou é um tipo de jogador raro, conjugando como poucos a robustez atlética com a apurada técnica, pelo chão e pelo ar, a que acrescenta excelente leitura de jogo ofensivo. Um jogador letal que muito contribuiu para a conquista do título da época anterior.
 
   A equipa ressentiu-se e só agora, após o dérby maior, começa a recompor-se. Dos substitutos, só Ruben Dias parece ter capacidade de fazer esquecer o antecessor; apesar de alguma imaturidade é portador da "mística" adquirida nos longos anos de formação, revelando robustez física, mental e capacidade de liderança. Será o futuro Capitão. O bravo André Almeida, generoso, abnegado, lutador, precioso, carece da criatividade do seu antecedente, decaindo o poder ofensivo da ala direita, sobrecarregando Sálvio, retirando-lhe impetuosidade e criatividade. Varela é um bom guarda-redes, mas aquém da valia do antecessor e das necessidades da equipa, revelando falta de oportunidade nas saídas e de qualidade na execução das manchas. Quanto à saída de Mitroglou, foi compensada com o robustecimento do meio-campo, privilegiando um 4-3-3, de que resultou maior equilíbrio na luta do meio-campo, mas menor capacidade de finalização, com a movimentação de Jonas coartada e este mais vulnerável à marcação.

   Julgo que Raul Jimenez poderá fazer de Mitroglou. Tem todas as condições para tal. Seferovic também. Ambos carecem de trabalho específico e o tempo escasseia. Tal opção, remete a equipa para o 4-4-2/4-2-4, induzindo vulnerabilidade no meio-campo face ao 4-3-3. Conseguir o dois em um é o segredo. Tal poderá ser conseguido selecionando corretamente o perfil dos segundo e terceiro médios. Pizzi e Krovinovik parece terem características adequadas; são inteligentes, tecnicamente evoluídos e lutadores. É uma questão de dinâmica e esta resulta do treino, das ideias do treinador e da sua capacidade de as fazer aplicar. Dinâmica e sincronismo têm constituído um dos maiores handicaps da equipa, que só episodicamente ostenta. Concentração tática e resistência mental coletiva, são atributos episódicos no jogo.

   Por tudo isto, para defender o título, julgo ser necessário, ao Benfica, ir ao mercado por um guarda-redes e um defesa direito. Pelo menos. Noto que ainda há défice de cruzamentos da ala esquerda; há talento, mas, ainda, algo incompleto. Cervi é tremendo lutador e forte nos duelos com bola, mas vulnerável ao choque. Zivkovik tem qualidades semelhantes, completando com maior robustez física e melhor meia distância. Nenhum deles parece ter, ainda, "agarrado" o lugar.

   Quando há interesse real de grandes clubes por um jogador, casos de Ederson, Nelson e Lindelof, a saída é inevitável. Mas, neste caso, falhou o planeamento por ter relativizado a importância do impacto destas saídas. Por displicência, creio. Também por contingências financeiras, estou certo. Mitroglou, porém, podia e devia ter ficado. Não queria sair e ainda não tem substituto à altura. Nem terá, tão cedo. Há duas formas de ganhar dinheiro; já, sacrificando o futuro, ou mais tarde ganhando mais. A opção depende da "almofada" disponível. Neste caso, parece ter havido falta dela. Mas...também se tem verificado falta de critério na aquisição de jogadores sem préstimo consolidando a tese da displicência. E, onde há displicência há decadência.

   Displicente foi também o planeamento da pré-época, vexatória para o clube em termos competitivos e sem eficácia na constituição do quadro de jogadores.

   Os sinais estão todos aí; as vitórias não acontecem por acaso, antes, como resultado da união, argúcia e tenacidade.

   Entregar o "ouro ao bandido", nunca! 

(Diego Rivera - Retrato de Julieta, 1945)

António Barreto JR

Still Fighting

      A equipa do Sporting chegou ao derby de quarta-feira passada, confiante; o primeiro lugar Ex aequo e três pontos à frente do rival, garante-lhe, na pior hipótese, a paridade, com maior ou menor dificuldade a equipa vai ganhando os jogos internos, a campanha europeia tem sido moralizadora, o modelo de jogo parece consolidado e validado. Fora das quatro linhas, uma atividade frenética da "estrutura" ameaça abalar o grande rival, o dinheiro parece jorrar a rodos...o sonho parece possível.
 
   Pelo contrário, a equipa do Benfica apresenta-se ansiosa, instável, consequência de uma campanha  irregular, desastrosa na europa e frágil nas provas internas das quais só o campeonato resta. Algo já previsível nos testes da pré-época após a severa decapitação do plantel. Os três pontos do topo da tabela, contudo, alimentam uma discreta esperança na vitória.
 
   Estas circunstâncias refletiram-se na postura das equipas; a do Sporting, tranquila, concentrada, disciplinada, coesa, expectante. A do Benfica, nervosa, sôfrega, algo dispersa e moderadamente intensa. O golo madrugador dos verde-brancos resulta da conjugação daquelas dinâmicas; avançados do Sporting concentrados no posicionamento e no passe e defesas do Benfica desatentos no alívio e na marcação.  Com efeito, o corte de Ruben Dias enviou a bola direitinha para os pés do adversário, revelando insuficiente leitura do lance. Este, manteve a serenidade ante a hesitação dos dois defesas encarnados, efetuando o passe "redondo" para o colega que, rematando, beneficiou de uma "carambola" que conduziu o esférico, em balão, para a frente da baliza, onde apareceu Gelson a finalizar de cabeça, em velocidade e sem oposição, surpreendendo os defesas, ocupados exclusivamente em seguir o esférico, e o guarda-redes, que nada podia fazer. Portanto, neste lance; concentração tática, serenidade e sorte do lado dos verde-brancos e imaturidade e deficiência tática do lado dos encarnados.  
 
   O avanço no marcador reforçou a confiança da equipa do Sporting, que construíu nova oportunidade ainda por Gelson, e constituiu um incentivo para os jogadores do Benfica aumentarem a intensidade e profundidade de jogo. Sucediam-se os lances ofensivos dos encarnados, algo inconsequentes; atabalhoada definição das movimentações e passes associada ao superpovoamento defensivo, resultavam em remates frouxos, precipitados e mal direcionados. Ainda na primeira parte, ficou na retina o tremendo petardo na trave a remate de Krovinovik, com Patrício inapelavelmente batido. Melhor sorte neste lance poderia ter catapultado os encarnados para exibição de gala.
 
   Não desfaleceram estes, mantendo-se o padrão de jogo, com os verde-brancos a apostar no contra-ataque. As entradas de Raul Jimenez, Rafa e João Carvalho, trouxeram mais velocidade e versatilidade ao ataque benfiquista onde Jonas, até então, batalhava desamparado. Finalmente os sportinguistas defendiam como podiam, esvaindo-se a tal serenidade que até então ostentaram. Finalmente o Juiz da partida vislumbra o lance que permitiria pôr justiça no marcador, para desespero dos verde-brancos.
 
   Jogo marcado por decisões polémicas e capitais da equipa de arbitragem e do vídeo-árbitro, todas em prejuízo da equipa do Benfica, ficando demonstrado que nenhuma tecnologia servirá ante a promiscuidade e fragilidade das instituições.
 
   O futuro dirá quem saiu melhor deste jogo; o Sporting manteve a distância do mais temido rival, mas perdeu posição para o rival nortenho e foi alvo de golpe psicológico negativo; O Benfica perdeu posição para o líder mas não deixou fugir o "eterno" e ostensivo rival, mantendo-se na luta pelo título. A boa exibição dos encarnados pode ter um efeito motivador nos jogadores e, com alguns acertos, no plantel e na tática, catapultá-los para uma segunda volta mais frutuosa, quem sabe, vitoriosa.
 
   Na conferência de imprensa, Rui Vitória manteve o seu discurso "redondo", sonolento, embora, desta vez, com alguma assertividade relativamente à apreciação da componente arbitral. Já Jorge Jesus exibiu a prosápia dos fanfarrões afirmando-se seguro da superioridade da sua equipa e denunciando-se pela desvalorização e omissão de fatos relevantes.
 
   Neste jogo ficou demonstrada a vulnerabilidade das instituições desportivas, e não só, que parece ter uma agenda para o campeonato, como já se verificou noutras modalidades, como a do hóquei em patins na época anterior. 
 

sábado, 19 de agosto de 2017

Trabalhar para ganhar

     Depois de uma pré-época titubeante, o Benfica fez uma boa entrada no campeonato com duas vitórias contra adversários muito incómodos, o Braga e o Chaves, após vitória concludente na Supertaça contra o Guimarães. Dos receios dos adeptos relativamente ao preenchimento das saídas de Ederson, Lindeloff e Nelson Semedo, parece claro que, a substituição deste, é a mais deficitária. Com efeito, Varela está a dar conta do recado - tem um pontapé muito perto do de Ederson e ainda não comprometeu na baliza (saída incompleta no golo do Guimarães) -, a qualidade técnica de Jardel não suscita dúvidas, mas a sua condição física sim (deixou-se bater no lance do golo do Braga), quanto ao lado direito, André Almeida perde na qualidade ofensiva, deixando o setor fragilizado e sobrecarregando Sálvio (estava capaz de apostar em Aurélio Buta). De resto, e apesar do cada vez mais apurada condição tática de Pizzi, há fases dos jogos em que há uma clara insuficiência do meio-campo, normalmente colmatada com sucesso com a entrada de Filipe Augusto. Na frente, Seferovic é uma bênção; capacidade atlética e técnica, controlo emocional, coragem, e uma inteligência tática ao nível de Jonas. Fantástico. Sálvio tem de controlar a ansiedade, pois está a falhar demasiado na finalização e Cervi tem que aprender com Gaitan a fugir ao choque.
 
   O que me deixa estupefacto, mais uma vez, é a profusão de lesões que está a verificar-se no plantel! O que é que se passa? O defeso não foi suficiente para normalizar a situação clínica dos jogadores? Estes tentam matar-se mutuamente nos treinos?
 
   Na componente arbitral parece-me muito preocupante a nomeação de Rui Costa para o jogo de hoje com o Belenenses. Cheira a provocação. Mais uma. Depois do que fez no jogo da equipa B deveria ser afastado por uns tempos dos jogos com o Benfica. Manda o bom senso.
 
   Sendo um defensor do vídeo-árbitro, estou a ficar preocupado; pela amostra, parece ser mais um instrumento de apoio aos rivais do Benfica. Assim não vale. Reduz a pressão sobre os árbitros, mas não atenua as injustiças. Pelo menos até agora. Nenhuma das entidades desportivas associadas ao futebol merece confiança. Com tão pouco tempo de uso, já há um padrão! À atenção dos Dirigentes do clube encarnado.
 
   Quanto aos castigos aplicados aos presidentes do Sporting e do Arouca, parece-me tardia e excessiva a assimetria das suspensões. Mais deplorável considero algumas considerações de comentadores desportivos como Vitor Serpa e Otávio Ribeiro. Censuram o atraso da sentença e a negação do direito constitucional à liberdade de expressão, como que censurando as condenações. E é esta gente que, repetidamente, alude à falta de cordialidade e dignidade dos dirigentes desportivos como  a principal contingência do futebol luso e não hesita em permitir que os seus jornais sirvam de caixa de ressonância de rumores provocatórios. A verdade é que, por qualquer razão que me escuso de qualificar, a comunicação social desportiva, é, geralmente, demasiado branda, por vezes até colaborante, com as diatribes dos rivais do Benfica. Até parece mais uma versão do politicamente correto em matéria desportiva. Volta e meia tenho a sensação de que o Benfica é um clube tolerado.
 
Força Benfica.

domingo, 30 de julho de 2017

Preparação descuidada

 
 
   O Benfica tem uma imagem a defender em todo o lado onde vai disputar jogos, sejam eles oficiais, sejam de preparação. Ser goleado, mais uma vez, pelo Arsenal, num país onde o Benfica ainda é respeitado pelos feitos do passado, é irresponsável. Um vexame para os adeptos. A equipa do Benfica não estava preparada para participar neste torneio. Está mal! Ou preparam-se ou não participam. Não me venham dizer que não tem importância, que acontece, que estamos na fase de preparação, que vamos encontrar soluções. O Benfica tem de deixar de ser uma equipa simpática, que até pratica um futebol engraçado, para ser uma equipa temida pelos adversários de topo europeu. Tal como foi no passado.
 
   A equipa aguentou-se enquanto teve pernas - na primeira parte -, depois, foi o descalabro. Uma vergonha. Jogadores amontoados ou dispersos, perante um adversário que joga, permanentemente, em todo o campo, mantendo todo o tempo, e mesmo após as substituições, elevada intensidade. Parece-me claro que temos um problema no eixo da defesa, colmatado, parcialmente - enquanto funcionar a dupla Luisão-Jardel -, e no meio-campo onde Pizzi é "curto" e Filipe Augusto tarda em aparecer. A Baliza está bem entregue a Júlio César mas é necessária uma alternativa ao mesmo nível. Na direita Buta está a corresponder, mas não chega.
 
   Alienar três jogadores do mesmo setor de uma assentada é imprudente. A capacidade revelada no passado de substituir grandes jogadores por outros de igual ou melhor valia, não constitui garantia de sucesso futuro. Pelo contrário, aumenta a probabilidade de erro. Por outro lado, o Benfica continua refém da dívida, que compromete a evolução desportiva; as vendas que têm sido feitas só terão valido a pena se contribuírem para a melhoria da competitividade futura. Este é o momento de amortizar o passivo definindo uma regra de ouro; metade das mais-valias das vendas de jogadores deve ser utilizada na amortização do passivo. Governem-se com o resto. O negócio do Benfica são as vitórias nas grandes competições e não a construção de hotéis, escolas ou a ridícula venda de colchões.
   
   O Presidente já definiu o objetivo de voltar a ganhar. Chega de conversas sobre o hipotético penta.
 
   Quanto à BTV, hoje, mais parece um templo à Direção, tal a proeminência laudatória de todos os intervenientes. Não há lugar à dissidência nem à discussão. Sugiro aos participantes a tonsura clerical pera identificação universal.
 
   Noutro âmbito, tenha-se em conta que o FCP reconstruiu a sua influência na Liga e na FPF, ficando agora claro a razão da saída de Fernando Gomes da estrutura para a Liga, primeiro e FPF depois. A anulação da sentença condenatória de Pinto da Costa e do Porto, apesar de todas as evidências, era o primeiro grande objetivo. Limpo o cadastro, seguir-se-á a preparação da saída em grande, com vitória e homenagem. Pelo meio, o enxovalho sórdido do grande rival, com pífios castigos tardios aos autores do mesmo, que, sem qualquer constrangimento, nem fundamento, difamaram o Benfica. Depois do meio-fracasso dos vouchers, o meio-fracasso do correio eletrónico. O primeiro negado em todas as instâncias jurisdicionais desportivas, o segundo negado pela matéria de facto. Os factos desmentem os autores da difamação. Apesar disso, ficou o enxovalho, arrastando atrás de si, boa parte da comunicação social desportiva com sua corte de comentadores.  Em contraste, os Tribunais, com o contributo do Ministério Público, preparam-se para absolver, mais uma vez, Pinto da Costa e o Porto do caso da segurança ilegal, ficando a Justiça muito mal vista junto da opinião pública por ser óbvio o condicionamento das testemunhas de acusação que alteraram os seus depoimentos em tribunal, ficando a convicção de que terão sido subornados ou ameaçados. Isto não honra a justiça.
 
   Só para registo futuro; o Benfica não ganha quando o partido Socialista Governa.
 
Portanto; arregacem-se as mangas, fale-se pouco e trabalhe-se muito.